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O que há a aprender com o Canadá?
Opiniões de um Arquitecto Português sobre esta terra imensa

O que há a aprender com o Canadá?

Começo por tentar saudar-vos como só os Canadianos sabem:

Hey!

Vivi os últimos três anos e meio no Canadá e creio que tenho o dever de partilhar convosco aquilo que aprendi sobre a terra e as pessoas.

Antes de mais, devo alertar que este é o primeiro post do meu Blog. Provavelmente é possível perceber que este está ligado ao website do meu recém-criado Atelier. Comecei por pretender que o Blog abordasse a Arquitectura, com um enfoque na minha paixão dos últimos tempos, a construção em madeira. Apesar de ter feito um enorme esforço para me tornar especialista (sempre admirei os engenheiros), a minha natureza manteve-me fiel aos princípios da disciplina arquitectónica. Falar de Arquitectura é falar da vida, das pessoas, dos livros e obviamente, é falar também dos espaços, dos edifícios e das cidades. Assim, fará sentido colocar no papel as minhas reflexões sobre uma terra que me recebeu tão bem e onde me senti como em minha própria casa.

Tudo o que escreverei será o resultado da minha estadia, primeiro em Winnipeg durante três anos e depois em Toronto durante seis meses. Pelo meio contei com algumas semanas de viagens entre o Atlântico e o Pacífico.

Esta é a experiência de um Arquitecto. Adivinho portanto que a minha visão terá sido sujeita a um filtro próprio da profissão. É sabido que os Arquitectos, para o bem e para o mal, vêem uma realidade que nem sempre corresponde àquela que os outros apreendem. Frequentemente olham para os lugares e retiram conclusões baseadas naquilo que estes podem vir a ser, ou naquilo que foram no passado, em vez de se reterem nos detalhes maçadores do presente.

Mas deixemo-nos de conversa e vamos ao Canadá.

Green Lake, Whistler, Canada. Foto Luis Morgado.

O que é um Canadiano?

Esta não é uma questão muito simpática, para começar, porque coincide precisamente com um dos pontos fracos do país: a identidade. Os Canadianos vêm de todas as partes do mundo, sendo possivel contabilizar mais de 250 origens étnicas. Sabemos que sem contar com os povos indígenas, a suposta identidade Canadiana foi cunhada primeiro pelos colonos Franceses e Ingleses. No entanto hoje, o número de pessoas originárias da Índia, das Filipinas e da China, só para dar alguns exemplos, está a aumentar. Consolidam-se assim comunidades que trazem com elas a marca das suas tradições, a sua linguagem e os seus modos de vida.

O Canadá apresenta-se orgulhosamente como um país multicultural, sendo este um dos aspectos mais interessantes do seu carácter. É certo que por outro lado, há uma enorme dificuldade em definir as características próprias de uma identidade nacional. Por vezes brincava com os meus companheiros emigrantes acerca da ausência de uma autêntica gastronomia canadiana. Mas no reverso da medalha podermos encontrar no Canadá vestígios de todo o mundo, incluindo restaurantes com iguarias dos lugares mais inimagináveis.

Poderia tentar sintetizar dizendo que o Canadiano é alguém que veio de qualquer lado e que em certa altura da sua vida decidiu ficar e viver com vizinhos que vieram de todo o mundo, para habitar numa espécie de utopia pacífica e multicultural do Norte.

Como são os Canadianos?

São definitivamente pessoas simpáticas. “Nice guys!”, este é um estereotipo, mas é um daqueles estereótipos acertados. Parece que os Canadianos absorveram as coisas boas dos Estados Unidos da América e as boas coisas da Europa, tendo ao mesmo tempo rejeitado as coisas más de ambos. Têm um sistema universal de saúde como nós e são pragmáticos como os Americanos. São empreendedores natos, mas não são capitalistas selvagens.

Embora sejam tipos muito competentes em muitas áreas, são também muito humildes. É muito raro encontrar arrogância no Canadá. O chefe não precisa de afirmar que é “o chefe” e não há reverência pelos “senhores doutores”.

Em Manitoba, a província onde passei a maior parte da minha estadia, as matrículas dos automóveis têm um dizer muito adequado: “Friendly Manitoba”. É verdade, as pessoas são mesmo simpáticas. Provavelmente esta característica relaciona-se com a sua necessidade de gerir a convivência com diferentes culturas. Mas, para alguém do sul da Europa como eu, os Canadianos são, por vezes, um pouco frios. Mantêm a distância entre eles e “os outros”, e um emigrante vai sentir-se como “o outro” durante muito tempo. Os Canadianos respeitam os estranhos mas não gostam de se envolver demasiado. Os meus amigos emigrantes, mais jovens que eu, queixavam-se da dificuldade em fazer amigos fora das comunidades de emigrantes. Um deles disse-me uma vez que se sentia como se estivesse num “aprtheid-bom”.

O que é o Canadá?

O Canadá é, depois da Rússia, o país com o território mais extenso do mundo. Tem cerca de 100 vezes a área de Portugal. Uma terra enorme e cheia de recursos: florestas, agricultura, vastas massas de água, pesca, minérios, etc. Por esse motivo, é necessário acolher mais população. Este é também o país que tem um jovem e bem-parecido primeiro-ministro. Este pode apresentar-se internacionalmente como a face simpática do Ocidente.

O Canadá é conhecido por acolher  refugiados como nenhum outro país o faz. O sistema através das suas instituições preocupa-se de facto com as pessoas carenciadas. Este é também um país com fama de uma boa educação e de boas universidades que acolhe jovens de todo o mundo. Os desportos e a natureza são dois trunfos absolutos: podemos pensar nos últimos jogos Olímpicos de Inverno (29 medalhas)  e no Turismos como estando naturalmente associados ao país.

E não, não me vou esquecer do frio. É verdade que o Canadá tem um clima difícil. Em Winnipeg convivi pela primeira vez com 40 graus negativos, mas também testemunhei o modo como as pessoas estão preparadas para viver com essas temperaturas. Durante todo o tempo que residi no Canadá, pese embora todo o frio, vento e neve, nunca precisei de um médico. Sempre me senti muito confortável, tanto nos espaços interiores, como nos exteriores. E na verdade, a Primavera, o Verão e o Outono são estações muito semelhantes às nossas.

Por fim devo fazer uma referência ao maravilhoso que é a natureza no Canadá, especialmente o espectáculo sublime que são as montanhas Rochosas (“Canadian Rockies”). Não me posso esquecer no entanto de dizer que algumas cidades também o são: Québec City, Montreal, Toronto, e Vancouver, merecem sem dúvida uma visita. E, não posso deixar de recomendar as “northern lights”, o fenómeno das auroras boreais, que proporcionam uma experiência do outro mundo.

Jasper National Park, Canada. Foto Luis Morgado.

Quais são as melhores coisas do Canadá?

Tentarei  ser breve nesta questão uma vez que já apontei algumas das melhores características do país, incluindo a deslumbrante paisagem natural. É incontornável não admirar a cultura de respeito e simpatia das pessoas, mas também é importante salientar a organização do Estado. O sistema parece funcionar bem do ponto de vista económico, sendo ao mesmo tempo um Estado com características assistenciais. A ajuda aos necessitados não é apenas pública. O voluntariado e as doações são uma forma corrente de devolver à sociedade parte da riqueza e das competências que a sociedade proporcionou aos mais afortunados.

Ao contrário de Portugal, as pessoas não se tratam pelos títulos: o meu chefe Tom é tratado simples e naturalmente por Tom, e nada mais. Os Canadianos não são pretensiosos e preferem passar os fins-de-semana nas suas cabanas, junto ao lago mais próximo, do que aparecerem em público para se mostrarem. Apreciam bons carros, mas mais porque são importantes para vencer o frio e a neve, do que por serem um símbolo de estatuto social, e quando podem andam de bicicleta.

Os erros dos outros são encarados com uma atitude positiva. Criticam sem serem desagradáveis ou sem ferirem o criticado. Utilizam o “hamburger system”, que qualquer emigrante conhece: para chamarem a atenção de um erro cometido, dizem primeiro algo de positivo, depois criticam e finalmente fecham a questão com uma palavra optimista e com um sorriso. Claro que é bom que o erro não se repita, de outro modo, o hamburger vai ficando sem as fatias de pão.

Embora os conhecimentos sejam importantes no mundo do trabalho e dos negócios, tenta-se fugir do nepotismo e da cunha. Tentam também evitar, tanto quanto possível, e não tenho a certeza que esta seja uma característica sempre positiva, o confronto e a discussão. Reservam a violência para os ringues de Hóquei sobre o gelo, que é o desporto nacional (para alguns é mesmo o sentido da vida).

Outro aspecto que apreciei no Canadá é a obrigação de colocar etiquetas normalizadas de ingredientes nos produtos do supermercado, para que o consumidor possa comparar objectivamente diferentes marcas. E um facto muito importante: a bandeira do Canadá é uma das mais bem desenhadas do mundo.

Quais são as coisas menos boas do Canadá?

Tom, o Arquitecto com quem trabalhei em Winnipeg dizia-me que o “Canadá não é uma Utopia”. Há o terrível tempo, pessoas más, crime, etc, e há um problema muito grande por resolver com os povos aborígenes (aos quais nós chamaríamos índios, mas essa é uma designação considerada desajustada e ofensiva). As pessoas de outros países normalmente não têm noção do que se passa. A minha irmã perguntava-me se quando eu falava de aborígenes não estaria antes a falar da Austrália. Neste âmbito, os Canadianos expressam constantemente o seu sentimento de culpa pelos erros cometidos no passado contra os povos aborígenes. O problema a meu ver não se resolve desta forma, aliás parece-me que esta postura contribui para estigmatizar em vez de curar. Não se olha para o futuro, martela-se num passado negro que a todos deita abaixo.

Já disse que as pessoas parecem ser fechadas e superficiais. Em geral, as diferentes culturas respeitam-se, mas não se integram verdadeiramente, pelo que parece evidente que há uma cultura que está acima das outras. Embora o multiculturalismo seja brandido como uma bandeira, os “brancos” dominam claramente as posições de poder e de liderança na sociedade.

As pessoas são tão educadas que por vezes parecem ser, um pouco hipócritas. Também são tão sensíveis, que a certa altura parecem querer censurar quase tudo. Tudo o que pode ofender uma minoria é um alvo apetecível. Começam por censurar as coisas más, censuram a linguagem pretensamente ofensiva, as personagens históricas por serem incorrectas, os nomes das ruas com os nomes dessas personagens, o Natal por ser cristão, o Hino por ser machista, e acabam por se censurar a eles próprios no dia-a-dia. Penso que eventualmente por não terem tido uma ditadura no passado, como Portugal teve, não valorizam suficientemente a liberdade. Na minha opinião os Canadianos acabam por se infantilizar um pouco quando proíbem os outros de dizerem coisas más ou estúpidas. É precisamente quando temos de argumentar contra a estupidez que colocamos a inteligência em prática através de argumentos racionais.

Direi ainda que o modelo norte-americano de urbanização obriga as pessoas a serem dependentes do automóvel. Por consequência, algumas das suas cidades, mesmo as mais importantes, carecem de um sentido de urbanidade, tal como o conhecemos na boa velha Europa. Por último uma nota para uma das coisas mais estúpidas que o Canadá tem, para além de chamar “soccer” ao futebol: os preços marcados nos produtos não incluem as taxas (federais e provinciais), que no acto da compra teremos de desembolsar.

Museum of Anthropology, Vancouver, Canada. Foto Luis Morgado.

O que aprendi, como Arquitecto, no Canadá?

Assim que entrei no Canadá perdi o meu título de Arquitecto. Para o usar teria de dar início a um processo que se iria adivinhar longo. Tal não me proibiu de trabalhar em Arquitectura com Arquitectos licenciados. O acesso à profissão não é facilitado, isto significa que a profissão é valorizada, primeiro pelos próprios Arquitectos e depois pela sociedade em geral. O Canadá, sendo um país com 35 milhões de habitantes, tem apenas 15000 Arquitectos. Já Portugal, tem cerca de 24000 Arquitectos para cerca de 10 milhões de pessoas.

De início fiquei surpreendido com o facto de o entendimento da Arquitectura, enquanto disciplina, ser tão semelhante nos dois países. Lemos os mesmos livros, apreciamos e odiamos os mesmos Mestres e temos paixões semelhantes acerca de tudo o que se relacione com Arquitectura. No entanto detectei algumas diferenças. O Arquitecto é apreciado como profissional, mesmo numa província como Manitoba em que os Arquitectos não têm o monopólio da Arquitectura. As pessoas contratam Arquitectos para questões difíceis e desafiantes porque estes resolvem os seus problemas. O salário de um Arquitecto a trabalhar por conta de outrem varia, em média entre 25000 Euros e 57000 Euros anuais. Em Portugal, o salário médio de um Arquitecto foi estimado pelo Architect’ Council of Europe nuns vergonhosos 13500 Euros.

Outra grande diferença em relação a Portugal reside no modo descomplexado como os Arquitectos consideram que a Arquitectura é um negócio. Não há o receio português de serem chamados de “Arquitectos comerciais”, assumem que os serviços de Arquitectura são um trabalho e não um passa-tempo, devendo por isso ser justamente pagos.

Há ainda uma cultura positiva de avaliação. As pessoas e as tarefas são constantemente avaliadas, não à maneira nacional, para reprovar ou promover, mas com o objectivo de melhorar o que há a melhorar. Outro aspecto que é, em geral, diferente consiste no maior equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Parece haver menos pressão no trabalho, talvez resultante do típico pragmatismo norte-americano.

Do ponto de vista da construção, ao contrário de Portugal, eles constroem em madeira e encontram-se bem posicionados para acompanhar a tendência de integrar os novos produtos de madeira nas médias e grandes escalas. Os regulamentos que incidem sobre a física das construções são muito mais exigentes, o que é natural, mas os regulamentos funcionais parecem ser bastante mais relaxados que os nossos. Só para dar um exemplo, eles admitem que na habitação se inclua um quarto interior, sem janelas, chamado “den”, o que nos regulamentos nacionais é absolutamente proibido. Significa isto que provavelmente estarão mais preparados para responder com mais eficácia às exigências da sociedade contemporânea e aos novos modos de vida.

A forma como enfrentam o processo criativo tem também algumas peculiaridades. Os Arquitectos começam normalmente um projecto com a recolha dos precedentes que irão informar o conceito proposto, ou seja colcecionam projectos semelhantes, que assumem como sendo fonte de inspiração. Tal prática em Portugal seria reprovada e associada à actividade da “cópia ilegal”.

Outra situação interessante, a que assisti em Toronto e que seria rejeitada em Portugal, é a existência de comités de Design, ao serviço da Administração Local. Estes apreciam esteticamente as propostas de licenciamento, propondo muito frequentemente revisões formais e estilísticas. Em Portugal estes comités seriam considerados, no mínimo, fascistas.

Para finalizar, devo dizer que os Arquitectos Canadianos são em geral muito bons e ao mesmo tempo muito eficientes.

Poderia ainda manifestar o meu apreço pela excelente Arquitectura paisagista Canadian, mas essa é outra estória.

Museu de Arte Audain em Whistler

Audain Art Museum, Whistler, Canada. Foto Luis Morgado.

Podemos falar de uma “Arquitectura Canadiana”?

Enquanto estive no Canadá reflecti sobre esta questão. Concluí que, efectivamente, não é possível dizer-se que há uma Arquitectura especificamente Canadiana. Não falo, é certo, na Arquitectura vernacular, na qual podemos encontrar aspectos locais únicos (e em madeira!). Na procura de um carácter distinto, deveremos começar por reconhecer que as identidades podem ser explicadas por razões naturais e culturais. As condições do clima e do território podem moldar identidades, como o podem fazer a necessidade de reagir contra um vizinho poderoso.

Por um lado, o Canadá tem um clima verdadeiramente difícil, mas não é muito diferente das condições vividas no norte dos Estados Unidos ou nos países da Escandinávia. Se observarmos com atenção, as Arquitecturas destas geografias são muito semelhantes. Por outro lado, embora os Estados Unidos sejam um vizinho poderoso, acaba por ter com o Canadá uma relação de “irmão gémeo”, especialmente no que diz respeito à Arquitectura.

É certo que devido ao clima, se dá grande importância aos regulamentos e à qualidade da construção, sendo essa uma questão de sobrevivência. Para além deste factor, o Canadá tem no multiculturalismo a condição fundamental com a qual têm de lidar os seus Arquitectos. Por causa da postura Multiculturalista, não só os regulamentos, mas também as soluções arquitectónicas acabam por apostar num menor denominador comum, capaz de satisfazer as diferentes culturas e sensibilidades. No Canadá constrói-se bem, e há genuína preocupação para com as pessoas, especialmente aquelas que têm problemas de mobilidade ou qualquer grau de deficiência. Há uma tendência enraizada, o que nem sempre acontece em Portugal, para respeitar usos e pessoas.

Poder-se-á então afirmar que não há então uma Arquitectura especificamente Canadiana, mas haverá decerto uma forma Canadiana de fazer Arquitectura. Diria que os Arquitectos canadianos, em geral, preferem ser bons do que mostrar que são bons.

É altura de terminar este texto, mas gostaria de dizer que o Canadá me tornou numa pessoa melhor. Aquilo que vou dizer a seguir já todos sabemos, mas acho que os Canadianos sabem-no melhor que ninguém: para viver e sobreviver devemos confiar nos nossos vizinhos e devemos ajudar os mais vulneráveis, porque um dia a nossa família, os nossos amigos ou nós próprios poderemos vir a estar também vulneráveis. Os Canadianos sabem também que para viver neste planeta, deveremos, não apenas compreender a natureza, mas respeitá-la.

Luis Morgado
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