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A Carta da Madeira
A valorização da madeira pelos Alemães

A Carta da Madeira

Temos um problema!

A pressão de uma população mundial com mais 2,5 biliões de pessoas fará aumentar o consumo dos nossos recursos. Precisaremos de mais energia, mais alimentação, mais água, mais construção e mais cuidados de saúde. Em 2050 a terra deverá suportar 10 biliões de habitantes, mas temos vindo a delapidar os seus recursos e uma grande parte deles não são renováveis. Mais: o clima está a mudar e parece-me que temos em mãos um grande problema.

“Apesar do aumento do consumo da madeira, as reservas da floresta Alemã aumentaram” Foto: © Smileus/Fotolia

O Acordo de Paris assinado por 195 países, na 21ª Cimeira sobre o Clima em 2015, reuniu um grande consenso sobre a necessidade de limitar o aumento da temperatura global a menos de 2ºC. Os desafios que enfrentamos conduzem-nos a rever os nossos hábitos: teremos de mudar de uma economia com base em combustíveis fósseis para uma economia de energias e recursos renováveis. É verdade que de tanta conversa que ouvimos, por vezes deixamos de acreditar na eficácia destes acordos. Mas parece-me que desta vêz é caso para acreditarmos. Vejamos o que anda a fazer a Alemanha. Como estão os Alemães a enfrentar o problema das alterações climáticas?

A Alemanha definiu uma série de objectivo e acções, no contexto das quais a “Charta fur Holz”, ou Carta da Madeira, tem um papel relevante. Escolhi escrever aqui sobre a Carta pelas implicações que tem no universo da arquitectura e da construção.

A importância da madeira na Alemanha

Aparentemente os Alemães acreditam que a madeira é o material renovável mais importante. Parece que consideram fundamental a utilização da madeira proveniente de florestas geridas sustentavelmente. Querem substituir os actuais materiais energético-intensivos pela madeira, mostrando fé na substituição do aço e do betão. Confiam no papel desempenhado pela madeira e pela floresta no sequestro e armazenamento do Carbono. Parece mesmo que entendem que o uso inteligente da madeira  pode reduzir as emissões de gases com efeito de estufa. A “Charta fur Holz” está aí para o testemunhar.

A Carta da Madeira

Em 2004 a “Charta fur Holz” estabeleceu o objectivo de aumentar o consumo nacional de madeira em 20%. A Alemanha, apesar de definir para si própria um período de 10 anos para o conseguir, chegou à desejada meta antes de 2014. Em 2017 assistiu-se ao lançamento de uma renovada edição da Carta, editando-se a “Charta fur Holz 2.0”. Os novos objectivos centraram-se agora nas garantias de uma oferta contínua de madeira e nos factores de aumento da eficiência e da reciclagem da madeira.

“The Charter for Wood 2.0 é uma etapa no caminho para as metas da mitigação das alterações climáticas”

Tendo assumido uma gestão responsável da floresta, a Alemanha quis reconhecer a floresta, não apenas como uma fonte de matéria prima, mas também como um sistema de armazenamento de Carbono. A floresta Alemã e os sectores da madeira são responsáveis por um armazenamento correspondente a 14% das emissões de Gases com Efeito de Estuda.

Os princípios da Carta derivam da Estratégia para a Floresta 2020, lançada pelo Governo Federal. A Carta da Madeira lida especificamente com os temas da madeira e com o seu papel no combate às Alterações Climáticas. O desenvolvimento das áreas rurais e a conservação de recursos são também abrangidos pelo documento. Para além disso, a Carta é também um dos instrumentos do Plano de Acção do Clima 2050. A elaboração da Carta teve como cenário um conjunto de conferências sobre a floresta e a madeira que culminaram com reuniões de peritos (políticos, cientistas e empresários) responsáveis pelo texto final. Este poderá parecer mais um documento com boas intenções e com os “soundbites” habituais sobre a sustentabilidade. Mas neste caso, parece não ser assim. A Carta é um guia para o Ministério da Alimentação e da Agricultura e para o Governo Federal. Cada estado Federal por sua vez tem a responsabilidade de implementar as acções propostas.

“Com o objectivo de mitigar as Alterações Climáticas, criando valor e utilizando os recursos de modo eficiente, a Carta da Madeira 2.0 centra-se no crescimento qualitativo”

Existe ainda um comité executivo que actua em ligação com vários grupos de trabalho. Cada grupo tem objectivos específicos: 1 – A madeira na construção; 2 – O potencial da bio-economia; 3 – A eficiência dos materiais e da energia; 4 – As florestas e a madeira; 5 – A floresta e o cluster da madeira; 6 – As florestas e os recursos. O Thunen-Institut é responsável pela avaliação do progresso dos objectivos e a Agencia para os Recursos Renováveis orienta e colabora na sua implementação.

A Carta abrange ainda os temas da floresta como fonte de riqueza e emprego. Incluídos estão também os aspectos da educação, mercado, competitividade, consumidores, investigação, informação e ainda o envolvimento dos vários actores: sector da construção, indústria, bancos e seguradoras, sector agrícola e sector público.

A floresta Alemã

Quando se refere que o objectivo original da carta é aumentar o consumo de madeira, surgem sempre questões sobre se a floresta não fica ameaçada por esta pressão adicional. Os números parecem demonstrar, não só que a ameaça não existe, como o consumo incentiva o desenvolvimento da floresta. O Inventário Nacional da Floresta de 2014 mostra que as reservas aumentaram 3.7 biliões de m3. Por outro lado, não se assistiu à tendência da “monoculturização” que acontece, por exemplo, em Portugal. Na Alemanha, “o rácio de coníferas na floresta nativa é agora de 54% nas florestas jovens esse rácio é de apenas 27%”.

Desafios Arquitectónicos

Para os arquitectos, o mais relevante da Carta é o incentivo ao uso da madeira na construção. O sector da construção na Alemanha utiliza 19% de recursos minerais. Estes requerem mais energia e são responsáveis por muito mais emissões de Carbono do que a Madeira. A percentagem de moradias unifamiliares subiu de 6% nos anos 90 para 18%, nos últimos 25 anos. O novo desafio é estender a vaga da construção em madeira para outras tipologias, como a habitação multifamiliar, e para outras áreas como as zonas urbanas. Deve ainda pensar-se noutros alvos preferenciais como as obras com construção mista, os edifícios públicos, as construções agrícolas e os edifícios temporários. As vantagens da madeira são, para além do armazenamento de Carbono e a redução das emissões, a rapidez da construção, a redução dos resíduos de construção, a leveza dos materiais e a flexibilidade proporcionada. A renovação de edifícios existentes é também uma área em que a madeira apode ter um papel fundamental, precisamente pelas suas características de leveza e de eficiência.

“Apenas 6% das moradias unifamiliares e bifamiliares eram construídas em madeira nos anos 90. Nos últimos 25 anos esta percentagem triplicou”

Outras medidas

Os mencionados objectivos da Carta deverão ser conjugados com outras medidas como a educação e a informação sobre a construção em madeira, a adaptação dos regulamentos, o desenvolvimento de sistemas de avaliação e o desenvolvimento de normas. A invenção de materiais mais leves derivados de madeira, a pesquisa para novos usos das madeiras de folhosas, a investigação sobre as fibras de faiaa para o sector do vestuário, a implementação do uso da madeira como combustível e o aumento da eficiência das centrais de combustão de madeira são algumas das possíveis áreas onde a procura da inovação pode ter lugar.

Como remate final, apenas para termos uma ideia da natureza da “Charta fur Holz”, alguns dos termos que podemos encontrar abundantemente são: “eficiência”, “longo termo”, aumento” e “garantia”.

É deste modo que um país avançado pensa e actua. E nós? Será que algum dia teremos a nossa Carta da Madeira?

Nota: A informação e as imagens são proveninetes da “Charta fur Holz” 2.0 na versão inglesa.

Luis Morgado
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